A esfinge e as escalas urbanas do Plano Piloto de
Brasília
Jorge Guilherme FRANCISCONI *
* Arquiteto
(FAU/UFRGS – 1966); MRP e PhD em Ciências Sociais – Economia Urbana, Metrópoles
e Planejamento Regional (Maxwell School of Public Administration/Syracuse
University, 1972 NY
Resumo
Este documento trata da
aplicação do conceito de escalas urbanas para atender aos valores da escala humana do Plano Piloto, em 1961,
e como instrumento para preservação da
concepção urbanística de Brasília segundo as características essenciais de cada escala, nos termos do que
determina o Art.2o, do Decreto 10.820/87 [Decreto Brasília
Revisitada]. Na medida em que os conceitos das características essenciais não
foi decifrado, eles constituem o enigma da Esfinge que obstrui a rota para
elaboração do plano urbanístico do Plano Piloto. O documento analisa a
contradição conceitual e metodológica que envolve a aplicação da escala urbana
para dois objetivos tão diferentes, apresenta sugestão quanto aos conceitos
básicos e a metodologia necessária para definir as características essenciais e conclui com breve aplicação tentativa
da proposta nas funções administrativas e simbólicas da Capital Nacional,
desenho urbano e território, vinculados à escala urbanística monumental.
Palavras-Chave: Escala Urbana, Modernismo,
Brasília, Lucio Costa, Planejamento Urbano
Abstract
This document evaluates the
concept of urban scale concerning its relation to the values of the human scale in the Project of
Brasílias’s Pilot Plan, in 1961, and its latter use as to preserve the urban
conception of Brasilia, based in the essential
characteristics of each urban scale, as required by Art. 2o. of
the Decree 10.829/87, known as “Brasilia Revisitada”. Due to the lack of
definition of the scale’s essential
characteristics, the concept became the riddle of the Sphinx that blocks
the road of access to the urban master plan of the Pilot Plan. This document
evaluates the conceptual and methodological contradiction that evolves the use
of the same concept for such different purposes, presents a proposition
concerning the basic values and methodology required to define the essential characteristics of each scale
and concludes with a limited attempt to use it within the administrative and
symbolic functions of the National Capital, its urban design and the territory
of the monumental urbanistic scale.
Key-Words: Urban Scale, Modernism,
Brasília, Lucio Costa, Urban Planning
A Esfinge e as Escalas Urbanas do Plano Piloto
1. Introdução
O caminho que nos
leva a regularização urbanística do Plano Piloto permanece obstruído pela
Esfinge do Brasília Revisitada1,
cujo pergunta-enigma é: Quais são as
características essenciais das escalas urbanas? Faz mais de 20 anos que o
planejamento urbano sustentável do Plano Piloto não avança porque, como sabem
todos que trafegam por estas paragens, não há conceitos claros e consistentes.
E frente ao impasse, cabe relembrar a criação das escalas e as diferentes
formas como tem sido usada para, só então, decifrar o enigma da Esfinge.
O ponto de partida
é a criação de Brasília, em 1956/19572, quando o plano-piloto nasce,
por assim dizer pronto, sustentado por Relatório que aponta para os principais
conceitos urbanísticos adotados. Seguindo o procedimento padrão do movimento
modernista [Le Corbusier, Louis Kahn], que se colocavam como poderosos
visionários a estabelecer a forma física da cidade”3, Lucio Costa
planeja uma Capital Nacional que é rapidamente construída graças ao autoritário
comando exercido por Israel Pinheiro, Oscar Niemeyer e Lucio Costa. Etapas
importantes na evolução do plano-piloto inventado4 ao Plano Piloto
construído.
2. O Conceito Inicial de Escala Urbana
Nas palestras que
profere, a partir de 1959, Lucio Costa emite vários conceitos para sustentar
seu projeto. Em 1961, quando responde aos “críticos de Brasília [que] a
qualificam como uma cidade em que o homem foi esquecido”5, diz que a
solução está em oferecer uma escala
humana que corresponda ao homem de nossos dias. E argumenta que as quatro
escalas urbanas de Brasília, com forma diferenciada, oferecem condições para
que cada cidadão possa usufruir e desfrutar a diversidade própria da vivência
urbana de uma civitas. O conceito
surge, portanto, para indicar formas de vivencia oferecidas pelo Plano Piloto
para atender o “homem” urbano, mas
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1
Decreto 10.829, de 14 de outubro de 1987, conhecido
como Brasília Revisitada.
2
Costa, Lucio. Brasília
57-85: do plano-piloto ao Plano Piloto. GDF/SVO/DAU :
TERRACAP
/DITEC, 1985
3
Jacob, Sam. “Resurrecting the DODO: the Death and
Life of Urban Planning”. In 49 CITIES
Webb,
Michael e Jacob, Sam, p.121, New York, Storefront for Art and Architecture,
2010.
4
O plano-piloto “inventado” corresponde ao urbanismo
modernista formal, enquanto outros
planos-piloto inscritos no Concursos adotaram
o conceito vigente de “plano diretor”, i.é: “previsão
de planejamento integral, previsão de todas as facetas da vida urbana, criação
de espaços, zoneamento, utilização diversificada do solo, etc..” ver Wilheim,
Jorge. Brasilia 1960 Uma Interpretação. Acrópole
/
brasilia. 1960
5
Sobre a Construção
de Brasília, Claudius Ceccon, seção Arquitetura do Jornal do Brasil de
18 de novembro de 1961. In Lucio Costa: Sobre Arquitetura, CEUA -
Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura, [FAU/UFRGS], 1962,
p.342/347. A crítica foi feita por Siegfried Gideon (1960).
depois tornou-se
fundamento urbanístico dos planos-piloto criados em 1957. 6
A indicação da
volumetria urbana que corresponde ao enfoque vivencial é visível na descrição
dos quatro cenários. Na escala ”residencial,
ou quotidiana,” as “áreas de vizinhança constituídas de superquadras que,
embora autônomas, se encadeiam umas às outras” oferecem condições de vivencia
que permitem “às pessoas encontrar-se, conviver, compreender-se.” De modo
semelhante, a “escala dita monumental” constitui
”expressão urbanística (que oferece) novo conceito de nobreza” e “traduz-se no jogo mais livre do espaço e
numa comodulação arquitetônica maior”. Neste território “o homem adquire
dimensão coletiva”. E, “Se a Praça dos Três Poderes corresponde em termos de
espaço e por intenção a Versalhes, a majestade é outra, é o povo - é a Versalhes do Povo”. Já a
escala gregária urbana corresponde
àquela forma de vivência em que “as dimensões e o espaço são deliberadamente
reduzidos e concentrados a fim de criar clima propício” ao “agrupamento, tanto
no sentido exterior da tradição mediterrânea, como no sentido nórdico do
convívio interior”. A espaço urbano para esta escala vivencial é de
responsabilidades do setor privado a partir de impulsos vindos do setor público7.
Ao final, isolada das demais, surge a escala bucólica, com “áreas cobertas destinadas a fins de semana lacustres
ou campestres.”
Para Lúcio Costa,
cada escala corresponde à forma urbana que atende um tipo de exigência da escala humana, com previsão de que o jogo das três escalas possa
“caracterizar e dar sentido a Brasília quando a cidade tomar verdadeiramente
pé.”8 Desta forma ele aponta formas especificas e diferenciadas de
vivencia urbana, próprias da escala
humana, e as concilia com o modelo físico do Plano Piloto modernista, que
difere dos planos diretores urbanos da época.
Ao longo do tempo,
os objetivos para criação da teoria das escalas urbanas foi sendo esquecida e o
conceito foi sendo adotado como fundamento teórico para sustentar as formas
urbanas adotadas no Plano Piloto. Com isso houve o gradual abandono do enfoque
vivencial vinculado à cada escala e a tênue presença inicial de valores
urbanísticos cresceu graças aos novos valores que foram agregados ao conceito
inicial. Ao final, quando já vinculadas a outros objetivos, as escalas urbanas
passaram a ocupar espaços importantes nas análises e avaliações do Plano
Piloto, mas sem ter o suporte de qualquer aprofundamento, teórico ou prático
por parte do gestor público,
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6
Costa, Lucio, Brasília
57-85, op.cit.
7
Diz Lucio Costa: “As áreas destinadas a esta
terceira escala são contiguas à Plataforma, onde
se cruzam os eixos da
cidade. As vias são estreitas, com pequenas lojas,galerias e praças privativas
dos pedestres; os cafés, restaurantes, cinemas e teatros serão enquadrados por
cinco pisos de escritórios para o comercia e as profissões liberais. [...] A
construção deste setor depende da iniciativa privada; os lotes do lado sul já
estão todos, praticamente, vendidos, alguns com projetos já feitos. O
retraimento havido decorre apenas das mudanças de governo e é de presumir que,
com a nova administração , o empreendimento retome o impulso que perdeu.” E
8
Ceccon, Claudius, in Lucio Costa: Sobre Arquitetura,
op.cit., pg 344.
de acadêmicos e de
pesquisadores. Ou mesmo do próprio Lucio Costa.9
3. O Segundo Conceito de Escala Urbana
Quase um quarto de
século mais tarde, o cenário urbano é outro porque não é mais “a mão do
projetista visionário nem a mão de uma ideologia explicita” que determina o
rumo das cidades, mas sim “a ‘mão invisível’ de Adam Smith, a mão do mercado”10.
Nesta época o projeto do Lucio Costa é atacado por ideologias sociais e por
interesses imobiliários e de mercado, pouco generosos e dispostos a destruir o
único ícone urbano do movimento modernista. Em resposta, se organizam grupos
para preservar os valores do Plano Piloto e que adotam o conceito de escalas
urbanas como marco teórico para sustentar o apoio que buscam junto a UNESCO.
Nesta época Lucio Costa havia concluído e publicado o “check up” do Plano
Piloto, que coordenara à convite do Governador José Ornelas,11 e
tinha excelentes condições para apoiar o esforço do Governador Jose Aparecido
de Oliveira na elaboração do Decreto Brasília
Revisitada para preservação da
concepção urbanística de Brasília. Aqui o conceito de escala urbana12
é aplicado para sustentar medidas mínimas
de proteção [que] garantam a salvaguarda da criação urbana de Costa e Niemeyer,13
como exigia a UNESCO e, como resultado, Brasília tornou-se Patrimônio da
Humanidade no final de 1987; após, foi inscrita no Livro do Tombo do IPHAN
enquanto que o Decreto era integrado à Lei Orgânica do Distrito Federal.
A caráter de
urgência, que parece haver dominado a elaboração de Brasília Revisitada, pode ter sido o responsável pela aprovação de
Decreto que resultou incongruente e, assim, inaplicável. Seja porque estabelece
dois diferentes planos pilotos como válidos para construção no mesmo
território, ainda que haja diferenças substantivas entre os dois; seja porque
utiliza as escalas urbanas para atender objetivos urbanísticos. 14
Ou seja: as mesmas escalas urbanas de 1961, criadas para identificar formas
urbanas que correspondessem às exigências da escala humana, em 1987 sustentam a preservação da concepção urbanística de Brasília. Ruptura
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9
Lucio Costa menciona as escalas
urbanas sem maior rigor e não as utiliza no Plano Piloto para urbanizar a
Barra, no Rio de Janeiro [1969], e no estudo para Nova Capital da
Nigéria[1976]. Ver Costa, Lucio, Registro
de uma Vivência. – São Paulo : Empresa das Artes, 1995, pgs. 344-354 e 358-
360, respectivamente.
10
Jacob, Sam. Resurrecting
the DODO: the Death and Life of Urban Planning, op.cit , p. 121
11
Diz Lucio: “De fato, este check-up urbanístico
revela que a concepção original vingou, e
que, apesar de certos vícios
congênitos e das maselas advindas do desconhecimento das verdadeiras intenções
do plano e [...] erros na sua interpretação, a saudável constituição
orgânico-estrutural da cidade teórica proposta e a força das idéias ali
contidas, garantiram-lhe singularidade e vida perene.” Brasília 1957-1985, op.cit.
12
Art. 38, Lei no 3.751 de 13 de abril de 1960.
13
Pressouyre, Léon, Parecer ICOMOS, maio de 1987, in O
Parecer de Pressouyre. brasilia 82,
Nova Fase/ano I :
Abril, Maio, Junho, p.32-33, 1988.
14
Francisconi, Jorge, Da insustentabilidade do Plano Piloto : mdc. revista de arquitetura e
urbanismo, 2011.
mdc.arq.br/2011/02/17.
conceitual que parece ter sido observado pelo
legislador que, com acuidade, condicionou o uso do novo conceito de escala
urbana à definição das características
essenciais de cada escala15. O que não foi concluído e por isso
o Plano Piloto permanece sem sustentação
urbanística.
4. Características Essenciais das Escalas
O impasse gerado
pelo Art.2o começou a ter resposta quando Maria Elisa Costa entregou
ao GDF proposta para que novas categorias fossem criadas, mediante consolidação
de os elementos determinantes de cada
uma das escalas e inclusão de elementos
incorporados, que estão presentes nos “acréscimos ou alterações
estruturalmente integrados aos determinantes;” e de elementos complementares, que seriam aqueles acrescidos entre a
data do Plano Piloto (1957) e a data do tombamento federal (1990), bem como
“intervenções atuais e futuras.”16 A lúcida percepção de caducidade
urbanística do Decreto Brasília
Revisitada leva Maria Elisa à re- conceituar as escalas urbanas e a propor
a revisão dos arbitrários perímetros definidos para cada escala urbana, em
1987. Sua inovadora proposta não foi adotada e cabe aos urbanistas, públicos e
privados darem continuidade para que o conceito de escalas urbanas seja
aplicado no Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília [PCUB] em
elaboração.
Para chegar nas características essenciais das escalas urbanas pode-se partir do
ingênuo e filosófico entendimento da cidade como amálgama de
território/natureza, de coisas e atividades que servem à escala humana17. Ou:
Cidade = território + coisas construídas +
atividades + natureza.
O
conhecimento científico sobre estes componentes e sobre a práxis urbana são objeto
do saber urbanístico, que é muldidisciplinar porque reúne múltiplas formas de
“olhar “ e explicar a forma e a dinâmica urbana. Como resultado há vários tipos
de “lógica urbanística” que são utilizadas para fundamentar o cenário,
aparentemente caótico e desordenado, das cidades e metrópoles. 18
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15
Art. 2o do Decreto Brasília Revisitada “A manutenção do Plano
Piloto será assegurada pela preservação das características essenciais de
quatro escalas distintas em que se traduz a concepção urbana da cidade: a
monumental, a residencial, a gregária e a bucólica.”.
16
Costa, Maria Elisa, Notas relativas ao tombamento de Brasília, ”paper enviado ao IPDF/GDF
[novembro, 1999] como
contribuição aos estudos para o Plano Diretor Local de Brasília“. Apud Botelho,
Lidia Adjuto, “O principio das escalas no plano urbanístico de Brasília –
sentido e valor além da proporção”, in Brasília
1960 2010 - passado, presente e futuro, org. Leitão, Francisco, SEDUMA /
TERRACAP – GDF, Brasília, DF, 2009.
17
Diz Espinoza: “Todas as coisas que estão na natureza
ou são coisas ou ação. Ora, o bem e o
mal não são nem coisas nem ações. Portanto o bem e o mal não existem na
natureza.”
18
A busca da lógica, que está invisível na aparente
desordem, conduz a saber urbanístico - inter
e multidisciplinar, representado pelo urbanismo,
setores da engenharia, economia e geografia urbana, ciências regionais, ecologia,
sociologia e administração, outras ciências e manifestações da arte.
No
Plano Piloto, cujo território corresponde ao perímetro da Área Tombada19
e engloba os territórios das escalas urbanas, temos que:
Territ. PPiloto = [Territ.Esc.Urb.y] +
[Territ.Esc.Urb.z] + [Territ.Esc.Urb.w] + [Territ.Esc.Urb.v].
Neste
território, as funções próprias da civitas/core de metrópole correspondem às
“coisas construídas” e as atividades realizadas no Plano Piloto, mas as funções
que correspondem à cada escala urbana e território, ainda não foram definidas
de forma clara e precisa. Como exigem o Decreto Brasília Revisitada e o PPCUB,
Esta condição implica em definir novo conceito, e seria melhor chamar de escala urbanística, como termo que
exprime funções e formas inerentes à condição do monumental, do gregário, do
residencial e do bucólico para preservação
da concepção urbanística de Brasília.20 Nesta condição, o
território de cada escala urbanística será
definido com a consolidação de cada característica
essencial, o que envolve funções urbanas, volumetria, infra-estrutura e
desenho urbano visto serem estes os elementos
que compõem cada característica, observados os condicionantes:
(i)
manter conceitos básicos de vivencia e forma urbana de Lucio Costa; e (ii)
consolidar as funções e caráter monumental inerentes à civitas Nacional. Se observados estes procedimentos, o pedigree do Plano Piloto será preservado
bem como serão consolidadas todas as funções nacionais que cabe oferecer em uma
Capital Nacional. Ou seja:
Escala Urbanística = coisas construídas +
atividades + natureza
Ou: Escala Urbanística =
atividades/funções + coisas [volume/infra-estrutura/forma]
Ou: Escala Urbanística =
função urbana + volumetria + espaços urbanos + desenho urbano
O
passo seguinte, após definidas as funções, usos, volumetria e desenho urbano de
cada escala urbanística, é o rebatimento destas características no território
dominante de cada escala, o que resultará na delimitação das territorialidades,
de forma simples e objetiva. Depois, para fomentar o jogo de escalas em cada
território, será prevista a integração de funções de várias escalas para
promover a diversidade e qualificação do tecido urbano, e assim evitar a
esterilidade funcional e formal que há em vários setores do Plano Piloto. Lucio
Costa, atento a esta indesejável condição, criticou as torres na escala
gregária e a pobreza urbanística junto aos hotéis e cabe, desde logo, dar
início à correções de rumos mediante a criação de espaços gregários
qualificados, com normas que permitam maior liberdade formal em projetos de
prédios e espaços públicos; estimulem o uso de novas tecnologias, além de
melhor qualificarem a integração de espaços públicos com áreas privadas, no
tecido urbano da Área Central.
O
peso das exigências, inerentes ao Plano Piloto, recaem mais forte em algumas escalas urbanísticas do que em outras,
visto que civitas abriga serviços e
atividades, públicas e privadas, próprias da administração federal [civitas administrativa] assim como há
espaços públicos e prédios dotados de simbolismo formal, e funções simbólicas
que são inerentes a uma capital federal [civitas
simbólica]. Esta dupla condição orientará a definição das características
das escalas monumental e gregária
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19
Parágrafo 2o do Art. 1o do
Decreto Brasília Revisitada.
20
Art. 2o do Decreto Brasília Revisitada.
na Área Central, e influirá no jogo de escalas criado para
integrar os valores vivenciais de cada escala urbana do Plano Piloto.
Estas
características da práxis urbana que é inerente a uma Capital Federal, inserida
na rede urbana brasileira, devem constar no PPCUB para inter-ação do Plano
Piloto com as cidades-satélites como na definição dos perímetros das escalas
urbanística. Deve haver também projetos que fortaleçam a qualidade da escala humana, tema que envolve a
compatibilização das NGBs dos lotes com as normas gerais das escalas. 21
5. Características Essenciais da Escala Monumental
As
características essenciais da escala
urbanística monumental envolvem usos, funções e atividades do gestor
federal bem como valores simbólicos nacionais, singularizados por urbanismo
[urban design] de extraordinária qualidade e dotados de importantes singularidades22.
Com isso temos que:
Escala Monumental = f[adminstr. federal] +
f[atividades/espaços simbólicos nacionais]
Isso porque o território da escala monumental, por
definição, é aquele da civitas
administrativa e civitas simbólica do gestor federal, onde a primeira
corresponde aos gestores federais, que respondem pelos Poderes Executivo,
Judiciário ou Legislativo de forma integrada e com o apoio de representantes do
setor privado no mesmo território. As funções / atividades da civitas administrativa da escala monumental são
fáceis de indicar, ainda que seja difícil planejar a infra-estrutura física e
administrar as exigências da União que surgem ao longo do tempo. Fato que
poderia levar o PPCUB a apresentar
modelos alternativos de parceria, entre GDF e União, para gestão conjunta do território da escala monumental. 23
Isso implica em que:
Escala Monumental Administrativa Federal = f[gestão
federal (atividade pública + ativid. privada)]
Como
atividades de nível hierárquico superior ocupam espaços e prédios com valores
formais diferenciados, há prédios com funções
administrativas que integram a civitas
simbólica, na qual estão reunidos, também, os espaços com função e/ou forma
monumental, como a Praça dos Três Poderes, e as atividades e funções de conteúdo
simbólico nacional, como museus nacionais.
A definição das
características essenciais da civitas
simbólica é mais complexa
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21
A definição das atividades
essenciais de cada escala poderá ser alcançada a partir de metodologia baseada
nos passos e nos aspectos indicados acima. Nas páginas que seguem é feito um
exercício exploratório envolvendo aspectos gerais da escala urbanística
monumental na Área Central do Plano Piloto.
22
“Conferir ao conjunto projetado o desejável caráter
monumental é intenção
que consta no
Relatório do plano-piloto,
de 1957. Para tanto, o PPPB anexo estabelece um plano urbano em que a
volumetria proposta por Lucio Costa se destaca a partir do terrapleno, que
diferencia o espaço federal.
23
Estas atividades mudam ao longo do tempo, condição
que exige normas urbanísticas flexíveis
e previsão de áreas para
expansão territorial. No cenário atual há áreas vazias ao norte e invasão de
áreas da escala bucólica por prédios do Poder Judiciário ao sul. Outras
entidades, como o Ministério das Cidades e CNPq, ocupam áreas de outras escalas.
porque
envolve: (i) arquitetura monumental de prédios com funções especiais; (ii)
espaços urbanos de cunho simbólico e (iii) atividades com valor simbólico
nacional. O primeiro grupo corresponde ao Palácio do Planalto, o Palácio da
Justiça e o Itamaraty, o Supremo Tribunal Federal, a Esplanada do Exército e
outros. O segundo corresponde a Praça dos Três Poderes, a Esplanada dos
Ministérios, a área verde do Eixo Monumental, a Praça da Justiça, entre outros.
Estes dois grupos são fáceis de conceituar e identificar porque apresentam
formas urbanas e arquitetônicas de natureza excepcional, graças à genialidade
de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, bem como pelo fato de terem sido praticamente
consolidados nas primeiras décadas da construção de Brasília.24
O terceiro grupo da
civitas simbólica envolve (iii) funções ou atividades com valor
simbólico nacional, o que agrega tudo aquilo que a civitas deve oferecer como expressão maior da cultura e da história
do Brasil. Para listar estas funções e atividades basta pesquisar àquilo que é
oferecido em capitais nacionais, como Otawa, Canberra, Washington, Paris,
Londres e Buenos Aires. Se comparada com estas capitais, torna-se evidente que
Brasilia é civitas desprovida de
atividades urbanas que apontem para valores, feitos e fatos, ou coisas da
história e da cultura, e valores simbólicos nacionais Uma lacuna a ser suprida
na indicação das características
essenciais da escala urbanística monumental e incluída no PPCUB - para que
se promova a consolidação do Plano Piloto. 25 Isso implica em que a:
Escala monum. simbólica = f (hierarq.adm.federal) +
f (simbolismo formal) + f(simbol. funcional).
Mas a condição permanece
incompleta devido a ausência da:
Ativ.simb.funcional = f (cultura; econom.;
tecnolog.; historia; etnograf, e outras simbologias).
6. Concluindo...
A resposta à
Esfinge que obstrui o caminho que leva a regularização fundiária do Plano
Piloto está na definição das características
essenciais de cada escala
urbanística. Isso pode ser feito de imediato, seguido da definição dos
territórios e os critérios para revisão dos perímetros de cada escala. Com
indicação dos padrões de uso das características essenciais de áreas mistas
destinadas ao jogo de escalas.
E consolidadas as
inovadoras características essenciais de cada escala urbanística, como exige o
Decreto Brasília Revisitada, caberá incluí-las no PPCUB depois de ouvida a
comunidade e, em especial, o IPHAN e a UNESCO. Ao final, caberá ao Poder
Executivo e ao Legislativo Distrital a responsabilidade pela aprovação de marco
legal que dê sustentação urbanística ao Plano Piloto de Brasília.
24
A expansão do setor monumental
sobre área bucólica deturpou a proposta original de Lucio Costa e é necessário
elaborar novo plano urbanístico que articule a Esplanada e a Praça dos Três
Poderes com praça e prédios de Tribunais Superiores.
25
Cabe indicar funções / atividades e prever áreas para sua implantação, em especial museus
interativos modernos para abrigar expressões de
caráter cultural, econômico, tecnológico, histórico, etnográfico, religioso,
ambiental, esportiva, e outros.